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Acusações de antissemitismo abalam a Documenta de Kassel

Mural com motivos judaicos e nazistas indigna autoridades alemãs e israelenses. Curadores da mostra na Alemanha negam intenção antissemita. Clamores para remoção da obra se chocam com apelos por liberdade artística.

Crédito: Deutsche Welle

Kassel: ofensa a judeus, alemães, artistas, democratas e muitos outros (Crédito: Deutsche Welle)

Apenas três dias após a abertura de sua 15ª edição, uma acirrada polêmica abala a exposição de arte contemporânea Documentaem Kassel, na Alemanha: uma obra do coletivo artístico indonésio Taring Padi está sendo criticada por representantes israelenses e alemães como profundamente antissemítica.

O mural People’s justice (Justiça do povo), originalmente exibido em 2002 na Austrália, apresenta uma figura soldadesca de aparência suína, em cujo capacete está escrito “Mossad”, o nome do serviço secreto de Israel. Outra figura tem os cachos laterais associados aos judeus ortodoxos, presas e olhos injetados de sangue e porta um chapéu preto com uma insígnia da organização paramilitar nazista SS.



Estudo aponta aumento “dramático” do antissemitismo no mundo

“Estamos repugnados pelos elementos antissemíticos exibidos publicamente na mostra Documenta 15”, escreveu a embaixada israelense, acrescentando que partes do mural são “reminiscentes da propaganda usada por [ministro nazista da Propaganda Joseph] Goebbels e seus capangas durante tempos mais sombrios da história alemã”. “Todas as linhas vermelhas não foram apenas atravessadas, elas foram estraçalhadas”, conclui o comunicado.

“A liberdade artística bate em seus limites”, concordou a ministra alemã para Cultura e Mídia, Claudia Roth, instando o coletivo de curadores Ruangrupa – sediado em Jacarta e encarregado da organização da atual Documenta – a “encarar as consequências necessárias”.

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“Monumento de luto pela impossibilidade de diálogo”

Nesta terça-feira (21/06), a imprensa alemã noticiou que a obra seria desmontada. Dizendo-se envergonhado, Christian Geselle, o prefeito de Kassel, comentou que “algo que não deveria acontecer, ocorreu”.


Angela Dorn, governadora do estado de Hesse, nde fica Kassel, disse estar zangada e decepcionada, e que o incidente comprometeria a reputação da Documenta.

Na véspera, o Taring Padi concordara em cobrir o controverso mural, que integra uma grande instalação ao ar livre, além de acrescentar uma nota explicativa.

Segundo o coletivo ativista fundado em Java em 1968, trata-se de “parte de uma campanha contra o militarismo e a violência que vivenciamos durante os 32 anos da ditadura militar de Suharto na Indonésia, e seu legado que continua a ter impacto hoje”.

“Não há intenção de relacioná-lo, de forma alguma, com o antissemitismo. Estamos desolados que detalhes neste outdoor sejam compreendidos de modo diferente de seu propósito original. Pedimos desculpas pela mágoa causada neste contexto.” A obra coberta se tornará “um monumento de luto pela impossibilidade de diálogo neste momento” e “este monumento, esperamos, será o ponto de partida de um novo diálogo”.

“Adicionar nota de rodapé é absurdo”

Apesar de o coletivo sustentar que se trata de uma crítica ao autoritarismo na Indonésia, grupos da comunidade judaica não concordam que baste cobrir a obra.

Charlotte Knobloch, presidente da Comunidade Judaica de Munique e Alta Baviera, no sul da Alemanha, se declarou “horrorizada pelo puro ódio aos judeus mostrado nessa imagem do Taring Padi”. Segundo ela, as características retratadas são “gritantemente antissemitas” e “adicionar uma nota de rodapé é absurdo”.

Para Josef Schuster, do Conselho Central dos Judeus na Alemanha, “liberdade artística termina onde começa a xenofobia”.

O presidente da Sociedade Teuto-Israelense, Volker Beck, e promotores estão preparando uma queixa contra o mural.

Controvérsia com antecedentes

Pela primeira vez desde que foi criada, em 1955, em sua 15ª edição a Documenta está sob a curadoria de um coletivo, o Ruangrupa, que convidou artistas de todo o mundo, especialmente do Sul Global.

Entre eles está o coletivo palestino The Question of Funding, acusado em janeiro de ser antissemita, numa postagem de blog, pelo fato de seus artistas apoiarem o boicote cultural a Israel.

A acusação, feita por uma aliança contra o antissemitismo, foi rejeitada pelo Ruangrupa em carta aberta, em que apela pela liberdade artística. Ao mesmo tempo, o coletivo indonésio se pronunciou a favor da neutralidade política, declarando-se disposto a entabular um diálogo. Na época, tanto o conselho supervisor da Documenta quanto a ministra Roth respaldaram a equipe de curadores.